O palco, as eleições e o ruído

O palco, as eleições e o ruído

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Não endosso e desconfio de todo artista ou esportista que se posiciona politicamente, explico por quê. Pouco importa a orientação ideológica, o artista, com raríssimas exceções, não é um pensador. Em época de eleição, isso trás mais ruído que harmonia ao palco.

Estar num palco, escrever um livro, montar uma peça, marcar um golaço, o que seja, não faz de uma figura pública uma pessoa mais sábia do que qualquer um daqueles que formam o público.

Às vezes, dá-se o contrário, embora a impressão passada por determinadas pessoas, por vaidade, é a de que a plateia estaria diante dos mais brilhantes pensadores. Risos nervosos.

O artista também erra e comete enganos, porque tem suas paixões e experiências particulares distintas, como quaisquer outros sapiens. Mas a influência exercida, sobretudo na parcela mais jovem do público, que, por amor, é acrítica na maioria das vezes, é imensa. E isso nem sempre é bom.

Com o alcance das redes sociais e o momento turbulento pelo qual atravessa o país, qualquer opinião dada sem o menor embasamento teórico, legal, calcada apenas em paixões, pode se tornar uma arma.

E mesmo respeitando a história de vida e arte de Lobão, Caetano Veloso, Wagner Moura e centenas de outras personas públicas ‘‘engajadas’’, não os vejo com maior embasamento teórico, filosófico e social do que eu, por exemplo, um relés admirador de parte do trabalho deles.

Artisticamente, estão anos-luz à minha frente. Mas tendem a acionar a boca antes de ligarem o cérebro, quando resolvem filosofar.

Nunca os vi, em seus posicionamentos, dizerem nada que eu já não tivesse conhecimento, e vou além: na maioria das vezes, disseram bobagens facilmente refutáveis, que, no entanto, seus respectivos fiéis aplaudiram e saíram replicando. Eis o mal. Replica-se, porque se ele falou, está falado. Não, não funciona assim.

Acriticamente, o fã tende a adotar como verdade qualquer bobagem que seu ídolo diga ou faça, independentemente do substrato que essa besteira carregue. Não há nada de errado nisso, frise-se. É assim a relação fã-ídolo ao longo da história. Não há até que isso leve a uma convulsão do coletivo.

Com isso, não me espanta que determinadas figuras públicas ao se elegerem, com a ajuda dos colegas de sua classe artística ou esportiva, e de seus séquitos de fãs, ao serem diplomados, cometam os mesmos erros dos, vamos assim definir, políticos de carreira.

Dessa forma, o que nos garante que um candidato ungido por uma figura pública fará diferente? Nada. Ou seja, qualquer postulante a mandato eletivo deve passar pelo nosso crivo pessoal, nossos valores, por nossa pesquisa acerca de suas vidas pregressas e realizações em sociedade, independentemente do que nos diga quem bomba nas timelines.

Millôr Fernandes, quando indagado sobre suas ressalvas com relação a Chico Buarque – grande compositor, mas que parte da imprensa e a totalidade dos fãs trata como um semideus do pensamento político – se saiu com uma máxima que carrego para a vida: “desconfio de todo artista que lucra com o seu ideal”.

Eis o ruído: na maioria dos casos, o posicionamento político se resume pura e simplesmente a lucro e vaidade, likes e sucesso.

Por isso, cante, leia, aplauda e se emocione, mas pense por você, sempre. Às vezes, sua conclusão pessoal pode ser idêntica a de seu ídolo. Mas nunca permita que a conclusão do ídolo preceda a sua busca pessoal.

Faltando pouco menos de trinta dias para a eleição mais importante no país desde a redemocratização, reflita e escolha com consciência.

Publicado originalmente em: https://www.linkedin.com/pulse/o-palco-elei%C3%A7%C3%B5es-e-ru%C3%ADdo-marcelo-feitoza/

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